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As cinco estações

Privilegiado pelas árvores, o bosque à janela de meu quarto, de onde migravam brisas aromáticas como filtradas por estames novos, canto de cigarras entre outros, quando a natureza revia seu sofisticado universo: as vastas manhãs da adolescência pareciam mais lânguidas na primavera.

O capitão na corte dos cadáveres

Respiro, ao entrar, o silêncio hostil desses que me aguardam na sala do general. Caminho com segurança mas sem presunção. Sei que deste último confronto dependem minha vida e minha morte. O que tenho feito nos últimos meses, cada lance como sobre um vasto tabuleiro de xadrez, desde as ações de bravura até meus romances clandestinos, imperfeitos e obscenos, tudo me conduziu, ao que parece, a este momento cabal e inevitável, o que provo hoje. Há olhares e silêncios. E tudo se parece com meu fim.

Nas escadas, mas não muito

“Ora, Júlio, você é livre. Livre para tudo. Pois não vai o tempo dissolvê-lo como a todos, não é esse o jogo do futuro? Do que então podem ameaçá-lo?”

“Não sei, Pablo. Ainda falta algo. Não compreendo. Ainda não. O que acha, Cândido?”

“Vendo você aí, sentado nos degraus da escada, como se tudo estivesse bem, como se sua tranquilidade não servisse a disfarçar graves turbulências, eu diria que devesse apenas prosseguir com calma.”

“Com calma. O que quer dizer isso?”

“Envolver-se com o trabalho sem ficar imaginando coisas. Ficar com essa moça mesmo. Afinal, não se pode encontrar alguém na justa medida para nossas arbitrariedades.”

A roda

Da janela, via os fundos do hospital e, a um canto do pátio, a velha roda de carroça. Sua febre repassava reis assírios, torturas medievais e as mais recentes. A roda vista era uma carroça, logo uma carruagem. Era um…

Os jovens peregrinos e o profeta

Permanecemos atentos às nuvens, no fundo esperando que de fato ocorresse algo diferente e devastador: a chuva. Fez uma noite abafada, opressiva, seca e sem vento. A calma do campo era relaxante, mas não afugentava o tédio. Só à noite,…

Homens de negócios

Da luxuosa antessala, a secretária conduziu o homem de valise, confirmando que o doutor o esperava. O patrão ergueu-se sorrindo, cumprimentou o visitante e ordenou que se fechasse a porta. O homem abriu a valise e o liquidou com um…

Você me acha cruel?

Enquanto coisas assim – imprevisíveis e aparentemente impossíveis há apenas algumas horas – vão acontecendo bem à minha frente, eu sempre digo a mim mesmo que ainda vou me arrepender desse dia. Na verdade, eu me arrependo de quase tudo o que faço.

Vina, a quase viúva

Ela era jovem e bonita. Cabelos lisos, castanhos. Não podia ter mais que uns vinte e três anos. Mascateando livros. Vida dura, marido doente, desempregado, poeta. A maquiagem muito leve disfarçava-lhe as olheiras, o cansaço, o ar abatido de viúva. Antes que eu lhe respondesse, entrou na lanchonete um rapaz de camisa estampada, cabelos aparados, curtinhos, e passou a folhear os livros, circunspecto. Ela voltou à mesa, vendeu-lhe facilmente um exemplar. Ficaram conversando – infelizmente eu ouvia tudo. O rapaz disse que o mundo precisava de poesia, mas muita poesia. Ela concordou, claro. Ele disse que os poetas eram espíritos de luz, e ela concordou de novo. Ele tinha um primo poeta, que havia escrito mais de mil poemas, mas que, desgraçadamente, desencarnara num acidente de moto. Por fim saiu, sumiu porta afora, levando seu exemplar. Ela contou rápido o dinheiro, dobrou-o, enfiou no bolso da bunda.

A encantadora ovelha ruiva. Parte 1 (Outro livro de bruxas?)

Anseio por vê-la diariamente, mas resisto: fico dois ou três longos dias longe da livraria para que não suspeite que estou apenas interessado nela. Peitinhos empinados, coxas consistentes, cintura... Cintura o quê? O que tem a cintura dela? E daí? Basta de descrições. Mais um pouco, só mais um pouco, vá lá, que esta vale a pena: uma bundinha que compensa todas as caminhadas, todas as esperas, anula a indiferença que ela demonstra por mim e me faz crer que eu a deseje talvez até mais do que imagino, que esteja apaixonado de alguma forma...