Ela era jovem e bonita. Cabelos lisos, castanhos. Não podia ter mais que uns vinte e três anos. Mascateando livros. Vida dura, marido doente, desempregado, poeta. A maquiagem muito leve disfarçava-lhe as olheiras, o cansaço, o ar abatido de viúva. Antes que eu lhe respondesse, entrou na lanchonete um rapaz de camisa estampada, cabelos aparados, curtinhos, e passou a folhear os livros, circunspecto. Ela voltou à mesa, vendeu-lhe facilmente um exemplar. Ficaram conversando – infelizmente eu ouvia tudo. O rapaz disse que o mundo precisava de poesia, mas muita poesia. Ela concordou, claro. Ele disse que os poetas eram espíritos de luz, e ela concordou de novo. Ele tinha um primo poeta, que havia escrito mais de mil poemas, mas que, desgraçadamente, desencarnara num acidente de moto. Por fim saiu, sumiu porta afora, levando seu exemplar. Ela contou rápido o dinheiro, dobrou-o, enfiou no bolso da bunda.