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Hoje, acabaram-se as xícaras

Despertei com o ruído na sala, Maria Célia recolhendo xícaras, copos, cinzeiros, o que restara mais que a memória de uns amigos da noite anterior. O jogo ia se tornando confuso com seus pires lascados, xícaras sem asa, e nenhum de nós se lembrava mais de quantas xícaras e pires havia de fato. Às vezes mais do que podíamos ver na bandeja. Às vezes menos.

A mesma aventura

“Bom dia a todos.”

Por isso todos me observam quando subo ao ônibus, pela manhã. Não se diz bom-dia a todos, especialmente com tal sinceridade. Estranham roupas que mal se ajustam e fazem de mim um cidadão deselegante, sem interesse. Óculos que mal se ajustam ferem-me o nariz e as orelhas. Mal eu me ajusto a alguma coisa. Mas posso vê-los a todos.

Breve relato sobre o conhecimento de artes singulares

No momento de embarcar, tudo sucede festivo e como nos atirássemos à mais gratificante aventura. Os companheiros nos acenam: “Vamos! Vamos!”, e eis o mundo de grandes portas abertas, de sorte à frente, tudo nos excita e convida ao futuro, menos o receio de acabarmos num dos quatro abismos que delimitam os mares e onde monstros impiedosos nos despedaçariam com uma só dentada de fogo. Logo, graças à minha ingenuidade e à minha fé nos semelhantes, fui abandonado no primeiro conflito, capturado por estranhos, por fim tornando-me escravo nas terras do lendário e temido monarca Mons Theos’al-drjdbr III, o piedoso, chamado assim porque seus antecessores apreciavam as torturas enquanto este se entediava com algumas poucas sessões e permitia que liquidassem o prisioneiro da maneira como bem entendessem, desde que o não fossem perturbar em seus aposentos.

Um único tiro

“É, eu estava com ela, já disse”, pegando o nariz de Liana, rindo. “Eu não disse não, menina?” Beijos na orelha e no pescoço dela, a mesma estratégia adolescente de tentar neutralizar a companheira, fazendo-a arrepiar-se num frêmito de desejo, uma palavra, uma expressão que ele adorava imaginar enquanto isso acontecia de fato. Fssss... – um frêmito de desejo.

Ela não se arrepiou.

Papéis com imagens, ossos para não esquecer

Quinze anos. Violentada pelo cunhado. Perdera o filho de um mês. Sombras de família. Segredos, escândalos. Foto-grafada no pomar, sorri em meio às laranjas. Saudável, cati-vante, pernas e pés à mostra convidando a um ato brutal de volúpia. O sorriso, o pomar de laranjeiras. O que busca a natureza afinal? Momentos de violento desejo gerando cria-turas frágeis e delicadas como os recém-nascidos não pare-cem participar da mesma sucessão de fenômenos. Ora, que dizer da morte? A mesma imagem ainda o desafia. A jovem o olha de frente. Sorri. Em meio às laranjas.

Arca com retratos do pai. Parte 2

Tudo em mim fica retido, antes de tudo. E fere ou fascina. O odor característico do papel plastificado, a tinta de impressão que até hoje reencontro em certos periódicos – eu começava a aprender dos textos, ao decifrá-los. O fascículo ilustrado com animais do Cretáceo, que ele me compra numa banca de esquina – também começava a aprender do tempo, com os dinossauros.

Arca com retratos do pai. Parte 1

Tudo isso não passava de alucinação para mim – essa infância que ouvia dele, seus pais e avós, a quem mal ou não conheci. Só em minha fantasia podia vislumbrar os funerais dessa ancestral, quando iam todos a pé, trajando a indumentária da colônia e portando archotes no inverno. A vegetação do vale, os caminhos de terra, a neblina. Sua neblina. Seu cortejo de fantasmas.

A moeda de milhões

Incontáveis são as sutilezas que envolvem a sexualidade humana, não menos que as grosserias, os desejos inconfessáveis, as taras dissimuladas, as distorções e excentricidades, os tabus subvertidos, as violações à força, a infidelidade camuflada em velhas arcas de família, por vezes deflagrando episódios de paixão doentia, obsessões incuráveis e crimes violentos, porém só um leve rubor altera a face destes jovens hesitantes enquanto trocam um beijo rápido.

De falsas princesas

Ao vê-la, pelo que percebeu como um breve instante, estendendo-se para o alto, apoiando um pé sobre a cama para alcançar o cabide vertical (Liana era baixa, mas não muito), as pernas tão bonitas bem ao lado do rosto dele, a tensão de uns músculos suaves logo acima do tornozelo, as coxas praticamente uniformes em sua consistência, Danilo sentiu algo poderoso, diferente do que apenas vinha sentindo há tempos, quando se forçava até o fim num ato de masturbação (porque, afinal, o havia começado) ou quando apenas percebia o contato físico de outro corpo, o que desperta mesmo ereções, de alguma maneira animal, involuntária e mecânica. Mas ali, era diferente.