Desdobramentos de um réveillon secreto

O mesmo fascínio de quem depara com a água cristalina ou o fio de inesperada luz entre as árvores.

1. Tornamos a nos conhecer na reunião que move a numerosa família à casa da matriarca, em sua cidade. Ali, os mais velhos apreciam clássicos do jazz e trilhas de cinema. Dessa vez, pareceu-me claro de sua parte, quando todos deixaram a sala rumo aos fogos e às festas previstas a céu aberto, e ela passou a ensaiar sua dança de olhos fechados, sob influência do disco esquecido – o ondulante movimento de ombros detido por meu impulso de prender-lhe um braço, prender-lhe os olhos frente à franqueza de quem podia antecipar o que ela própria ansiava por revelar-me, quando eu lhe disse: “Você não gosta dessa música!”.

2. Nenhuma lembrança do que havíamos sido na infância parecia apontar àquele outro momento em que nos encontrávamos sós sobre o grande tapete. Ela, tentando alcançar um objeto, dava-me de volta o mesmo fascínio de quem depara com a água cristalina ou o fio de inesperada luz entre as árvores: assim eu a surpreendi nua sob a saia cinza, embora não fosse ainda a primeira vez que nos alcançaríamos de todo – ou ao mesmo objeto.

3. Ela também recordava na escuridão: eu desde pequeno brincava como agora, a mão de olhos fechados percorrendo lentamente a superfície do lençol, identificando e aprisionando entre os dedos alguma impureza mínima, o átomo-grão do que quer que fosse e quase não existia, pelo menos não à disposição de nossos sentidos comuns, pois quando, mais tarde, acariciava sem pressa sua nudez, minha prima disse: “Você tem as mãos de um cego.”, e isso foi o que de mais belo ouvi de uma mulher.

Lisette Maris em seu endereço de inverno – Guia de leitura

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Lisette Maris começa aqui: 1. O demônio no fundo do quarto

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Imagem: Wassily Kandinsky. Diversos círculos. 1926.

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