Projeto esvanecendo-se. O que ela faz durante o dia?

Nossa civilização não está pronta para isso.
E minha ociosidade não pode converter-se em frivolidade, algo assim sem rumo, não pode declinar à rendição.

O que ela faz durante o dia? Não pode ser que fique à toa na maior parte do tempo e em sua restrita dimensão de espaço, esperando que eu me prontifique a vê-la. Não existem dessas graças assim disponíveis, à mão de um oportunista hesitante que nem mesmo a sustenta. Não na vida real. Eu não me perguntava isso antes, porque não tinha nada a ver com a sua vida. Mas agora tenho. Então, o que ela faz durante o dia? Versão Josie: currículos em consultórios médicos dentários clínicas e similares, quer ser mais ou menos o que era antes, atendente secretária assistente meio telefonista meio sorrisos de covinhas, a sorte daqueles que a encontram e se alegram com seu rostinho de frente. Sabe atender sabe agradar sabe cobrar, débito ou crédito, via do cliente, agenda com fitinha azul, como não? Não. Não pode ser só isso. Entregar currículos? O dia todo? Todos os dias? Essa menina tem um currículo? Certificado do ensino médio, talvez. Ou nem tanto, será que ela terminou o curso? Mas pode ser que sim, já que ela pensa em fazer faculdade, é estranho… – lembrar de perguntar-lhe isso.

Por causa da solidão e da privacidade, será que ela anda nua pela casa? Ou seminua, que seja. Que diferença isso faz, se não estou lá para ver? Não importa. A curiosidade nos levou às estrelas. E minha curiosidade particular, com variações de voyeur adolescente, é apenas uma amostra sem futuro de tantas conquistas maravilhosas. A Josie seminua, melhor que nua. Fascínio de preliminares. Melhor que nua, sim, é o que sinto, o que penso. Vestida a cada novo encontro, quando me espera. Uma conquista maravilhosa. Acidental. Aconteceu de ser. Ela não fazia parte das metas. Não faz ainda hoje. E isso me encanta e gratifica justamente. O acidente o acaso a oportunidade me atraem. A intromissão na ordem esperada das coisas. Enquanto eu, o velho bom menino, aceito e obedeço, contido e conduzido pelo conjunto de decisões alheias, desde a voz mais próxima até as emanações quase abstratas de poderes inacessíveis, eu quase sucumbindo a um conformismo absoluto, acontece algo que desorienta os organizadores do mundo, que os surpreende, e, guardado em segredo, continuará desorientando ainda suas linhas traçadas nas tábuas nos códices nas pedras, desrespeitando suas projeções desafiando sua supervisão ameaçando sua ilusão episcopal de controle – sem que eles saibam! Que são as ações motivadas por fortelatentes sinais de vitalidade. Alheias às agendas. Golpeando seus projetos de construção social com a natureza provisória das situações improváveis que ocorrem entre os dias devidamente numerados, como os bemóis e os sustenidos cravam-se entre as teclas brancas e sua sequência lógica. Em minha imaginação de hormônios inquietos, auxiliares de minha desonra, a Josie passeia despretensiosa pela casa. Passa de uma divisão a outra, distraída. Em minhas noites brancas ela se move naturalmente à luz do dia em seu alvéolo, simples e silenciosa, com sua calcinha preta.

A Josie deve se sentir sozinha. Por muito tempo do dia. É assim quando estamos fora de alguma coisa do mundo. E… que mais? Ontem eu fui com a Quiel no centro. Ver umas coisas com ela, bater perna, comprar. Ver lojas, na Barão. Umas roupas. Coisas de maquiagem, de mulher. Só isso? Mas não todos os dias, suponho, e o dinheiro dela não vai durar sempre. Você quer ir comigo, lindo, vamos um dia lá no centro, nós dois, vamos, passear um pouco? Ah, eu ia amar você comigo, vendo lojas… Sim, eu sei que é espontâneo da parte dela, sei sim, pelo jeito falar, esse improviso, a entonação de voz, é algo de agora, não planejado, num instante ela me viu ao seu lado, centro da cidade, vagando ante as vitrines de umas ruas de vidro. Comprar-lhe um presente talvez. Comprar-lhe coisas, de vez em quando, pense nisso. Não. Não. Definitivamente não. Diga isso a ela, educadamente. Diga que não será seu companheiro de passeios de mulher. Mas calma, tenha paciência. Ela está sendo espontânea, só isso, não merece respostas bruscas. Imagine-se a cena, eu e a Josie, juntos por aí. Mãos dadas, quem sabe. Braços dados, à moda antiga. Não posso (versão real: não quero), de jeito nenhum. Não podemos. Nossa civilização não está pronta para isso. E minha ociosidade não pode converter-se em frivolidade, algo assim sem rumo, não pode declinar à rendição. Ainda estou inteiro, com tudo que fortemente penso.

Projeto esvanecendo-se

– sequência

27. Sonho com Josie na galeria – anterior

Guia de leitura

Imagem: Pintura de Scott Harding.

Projeto esvanecendo-se. Sonho com Josie na galeria

Ela não reage. Seu rosto parece sem cor. Talvez esteja morta.
Talvez seja apenas uma impressão, devida ao excesso de luz ambiente.

O sonho, Juan. Sentada ao meu colo, ela me beija fortemente, ao que correspondo com igual vontade, deliciado com esse privilégio. Estamos sobre uma mureta larga, de superfície lisa, pedra imitando mármore com manchas claras, em meio a uma galeria de lojas ou algum outro tipo de núcleo comercial de estética fria, mas limpa. Pessoas passam calmamente por nós, interessadas em outras mil coisas, e tudo indica que elas nos veem, não percebem nossa presença. Também sentado na mureta, a dois braços de distância, um homem grisalho, discreto e silencioso, nos observa e aos nossos beijos incontroláveis, porém com mínima curiosidade, alternando o foco de seu olhar entre nosso momento mágico e outra coisa qualquer ao redor, como se tudo fizesse parte de um mesmo contexto sem surpresas, declinando à neutralidade. Entre um beijo e outro, entre mechas soltas dos cabelos dela, que me obstruem a visão, identifico por um ou outro instante o teto muito alto e iluminado desse lugar, talvez todo estruturado em vidro, quase uma película nos separando a todos do céu claro logo acima. Deve ser um dia lindo, penso. Os cabelos dela têm a cor da areia, com mechas escuras irregulares, como se estivessem sujos. Algo me chama a atenção nessa coincidência de tons: as manchas na pedra lisa da mureta, a luminosidade, as manchas nos cabelos dela, algo alternando imagens limpas e sujas, claros e menos claros – mas nunca escuros. Ela tem as pernas bem delineadas sob a pressão da calça justa, camisa um pouco aberta no peito, seios no sutiã, cabelos despenteados por todos os movimentos que nos controlam, mais do que nós a eles. Em algum momento, vejo suas mãos bonitas, uns anéis pequenos mas encantadores, com detalhes coloridos. Também em algum momento, vejo seus pés, tão belos quanto suas mãos, em algum tipo de sandália baixa, com brilhantes. Então eu afasto seu rosto, subitamente preocupado com a situação, que só agora me incomoda, despertando-me uma preocupante ansiedade. Observo sua boca ainda úmida, refletindo o brilho desse ambiente amplo e iluminado. O homem grisalho ao nosso lado torna a nos inspecionar, rosto impassível, nenhum ar de crítica, apenas nos percebe ali, depois volta-se para umas vitrines ali perto, em frente a nós. Digo a ela palavras parecidas com estas: Ei, espere. Espere um pouco, escute… Nós estamos em público. Num lugar público. Está ouvindo? Essas pessoas todas, olhe. Veja você mesma. Ela não move a cabeça, apenas espera. É como se algo a imobilizasse. Continua de olhos baixos. Inerte. Só consigo ver suas pálpebras. Fico em dúvida se ela também está olhando minha boca ou algo à altura do meu peito ou, enfim, se está morta – o que, curiosamente e sem nenhum espanto, me parece o mais provável. O homem grisalho ergue um braço, apontando algo na vitrine à frente. Aqueles são os relógios!, com algum sinal de entusiasmo. Eu o considero, intrigado, olho para a vitrine que me aponta, mas não consigo identificar nada ali. Volto-me para ela, a garota agora quieta junto a mim. Veja, você mesma, essas pessoas todas. Está vendo? Ela não reage. Seu rosto parece sem cor. Talvez esteja morta. Talvez seja apenas uma impressão, devida ao excesso de luz ambiente. Nós estamos em público. Ouviu? Finalmente ela move a cabeça, concordando. Ainda sem olhos. Rosto voltado para baixo. Pálpebras de uma morta. Uma jovem morta. Mas eu continuo falando a ela. Me procure. Vamos sair juntos. Outro lugar. Um horário qualquer. Agora ela está de perfil, ainda sentada sobre minhas pernas, braços ao redor de meu pescoço, cabelos presos num rabo de cavalo – mas não entendo como, em que lapso de tempo, ela fez isso, prender os cabelos, se um instante atrás estava morta e com os cabelos soltos. Com o rosto de lado, como se avistasse algo a distância, no vértice das galerias, sem olhar para mim, finalmente escuto sua resposta. Não. É imprudente. É arrogante. O quê? Arrogante? Sim. Você acha que eu estou a sua disposição. Mas daqui a pouco não serei mais nada. E você nunca mais vai me ver. As chances se extinguem, não entende? Se extinguem para sempre.

Meus sonhos intrigam o doutor Stabile. É que eu não conto a ele mais do que isso, ficam faltando peças ao quebra-cabeça. Ele talvez desconfie, experiente, que essa garota se repete em algumas de minhas maravilhosas produções involuntárias em meio ao sono, interrupção inevitável da vigília. As peças que faltam, que sempre faltarão, é a Josie. Sobre quem ninguém, absolutamente ninguém, ninguém mesmo, pode saber.

Projeto esvanecendo-se

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26. O anjo de ficar – anterior

Guia de leitura

Imagem: Pablo Picasso. O guitarrista (detalhe). 1910.