Brincadeira com bichos

O que achei de fato interessante foi o bicho escolhido, um escorpião. Achei interessante mesmo.
E era um rapaz anêmico, olhos fundos, parecia doente.

Cassio Polegatto. Gato preto. 2015.Sempre detestei ter de participar do que quer que fosse. Sempre mesmo, desde que me entendo por gente. Mesmo em criança, isso me parecia repulsivo. Tinha a impressão de ser forçado a ser como os outros, de pensar como pensa um grupo, agir conforme o já esperado, para que fosse sempre um como eles. Por isso. E não é pouco, convenhamos. Depois, por que haveria de ser como eles? Festinhas no escritório, por exemplo. Pessoas sem nada em comum, vidas separadas, hipocrisia diária… Não vou falar sobre isso, assim já é demais.

O fato de não pertencer a nenhum partido, ordem ou religião poupa-me de defender ideias alheias e torna-me sempre mais livre em minhas opiniões. Eis aí algo que me interessa, sim, a liberdade. A liberdade, por exemplo, de poder dizer qualquer coisa fora de propósito num momento em que todos se sintam unidos por algum tipo de… Muito bem. Já me sinto livre por interromper-me, sem dar trela a novas conclusões. Ah, sim! Muito bem. Isto vale mencionar, a última vez em que participei de alguma coisa, que me lembre.

Meu único interesse, quando me inscrevi, era conhecer o Liceu de Artes e a Pinacoteca do Estado, um programa barato, planejado a partir das linhas do metrô e de suas estações, perto das quais se localizavam os pontos a serem visitados. Formavam-se normalmente grupos de umas dez pessoas, acho, e íamos todos seguindo duas funcionárias uniformizadas em coletes cor de laranja que mais lembravam salva-vidas. Não, não exageremos. O programa não era propriamente um naufrágio. Acontece que, num certo intervalo entre uma andança e outra, uma das guias propunha que formássemos um círculo, e ficávamos todos ali, olhando a cara um do outro, tentando entender para que diabos serviria aquilo.

“Para que isso?”, perguntei a uma delas, a que estava bem ao meu lado.

“É uma brincadeira de integração”, ela sorriu.

Sim, só podia ser. Uma brincadeira. Principalmente nesse caso, tratando-se de pessoas que não se encontrariam pela segunda vez em toda a vida. Mesmo assim, a outra pediu que cada um de nós representasse com gestos um bicho de sua preferência, e o resto do grupo teria de adivinhar que bicho era aquele, claro. Ela lembrou que aquilo servia para exercitar a criatividade que existe em cada um de nós, que todos nós tínhamos criatividade, só o que faltava era desenvolvê-la etc. e tal. Falava sério.

“Todo ser humano é um artista”, concluiu. Disse isso com tal convicção que alguns moveram a cabeça como se de fato acreditassem.

Apesar das esperanças da moça, e só para se ter uma ideia, alguns imitaram cães, pássaros, cavalos e outros animais tão óbvios que levariam ao tédio uma criança de três anos. E o fizeram com a mímica mais evidente possível, como de propósito para contrariar as palavras da guia. Mas não creio nisso. Eles me pareceram, inclusive, bem à vontade. Mesmo assim, quando o grupo decifrava o bicho em questão, quase ao mesmo tempo em que o imitador se punha a gesticular, a guia mostrava-se excitada: “Muito bem!” Parece incrível, não é? Eu estava lá e vi – vi, com estes olhos! Enquanto os animais se repetiam, eu me perguntava desconsolado: será que isso tudo é mesmo necessário?

“Um peixe!”

“Muito bem!”

Para não dizer que foi tudo tão previsível, um sujeito ali imitou tão mal sua mascote que manteve o grupo intrigado por mais tempo. O que achei de fato interessante foi o bicho escolhido, um escorpião. Achei interessante mesmo. E era um rapaz anêmico, olhos fundos, parecia doente. Tive vontade de sair de meu lugar e cumprimentá-lo, nem sei por quê.

“Muito bem”, tornou a guia sem dar-lhe mais atenção.

Os outros iam lembrando mais bichos sucessivamente até que chegou minha vez e… Muito bem: eu me recusei. Isso mesmo. Muito bem. Disse a todos que não estava disposto a imitar bicho nenhum e só o que queria era conhecer a Pinacoteca. Alguns olharam-me com antipatia, eu sei.

“Não custa nada”, resmungou alguém.

Não, é verdade, não custa. Também não lhes custaria nada deixar-me passar a vez. A maioria não suporta que alguém não queira participar.

“Pelo menos fala o nome de um bicho”, insistiu a guia sem alterações em seu humor. “Só o nome.”

“Mas por quê?”, perguntei quase choramingando. Eu realmente não compreendia que necessidade todos tinham de coisas assim. “Por quê?”

“Ah, vai, fala…”, pediu uma das nossas, uma moreninha que vinha me observando especialmente, como pude notar, desde a primeira estação. “Fala, vai…”, pedia como num lamento.

“Só pra participar”, ajuntou a outra guia.

Era justamente isto o que ela não assimilava de minha atitude: a ideia de não participar, de forma alguma. O que me obrigava? Eu não me havia inscrito naquela excursão para uma coisa dessas. E me aborrece que alguém fale em participar, tanto que, quando ela disse aquilo, eu me tornei ainda mais arredio.

“Não, droga, não falo bicho nenhum. Acho isso tudo um…”

“Mas que que custa?”

“Fala um e pronto.”

“Ah, vai… Fala…”, repetiu a mesma garota, a bonitinha, ênfase mais suplicante.

“Camelo!”, gritei de repente.

Todos se assustaram.

“Muito bem!”, fez a guia, vitoriosa. “Camelo, muito bem.”

Ia dizer camaleão, mas esse bicho nunca me agradou muito, e o que saiu foi camelo, talvez pela proximidade de sons. Os outros aplaudiram, satisfeitos. A moreninha ficou muito contente. Camelo, Camila. Pior: camaleão. Isso resolve tudo, não é? O fato de eu ter dito camelo e a necessidade alheia de sermos todos semelhantes integrou-me à força naquela brincadeira inútil. Acabou-se o intervalo, e as guias nos levaram a conhecer outros itens do roteiro, uma à frente do grupo, outra entre os últimos de nós, em seus coletes salva-vidas, conduzindo o rebanho. Pronto. Está aí relatada uma de minhas raras experiências em integração.

Outra coisa que tive vontade de fazer, quando insistiram: deixar todos ali, naquele círculo idiota, e ir para qualquer outro lugar. O que poderia impedir-me? No máximo, diria algo como: “Isto não me interessa absolutamente. Não, absolutamente. Com licença. Isto não me interessa…” Mas eu me conheço e sei que não sou tão forte.

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Imagem: Cassio Polegatto. Gato preto. 2015.

Todos nós morreremos na semana que vem. Parte 7

Às vezes torno a embriagar-me de esperanças

Sentia-me tão bem que poderia rir de meus pesadelos. Falo sério.
Embora eu pressentisse tal entusiasmo como transitório, pretendia vivê-lo o mais que pudesse, pelo maior tempo possível.

John Houston. Chicago Hancock, chuva em novembro.O que pretendo com isso? Justificar, explicar alguma coisa? Absolutamente. Foi só um sonho que tive. Qual seria então a resposta para a existência? O amor entre os homens? E isso seria possível fora dos sonhos? Não sei, não sei. De qualquer forma, foi maravilhoso ter vivido a manhã seguinte ao sonho de amor. Tudo parecia impregnado de ternura e música, os aposentados com o dominó, os músicos em sua esquina e todos os que passavam por tudo. Cultivar a essência desse sonho tornaria menos obscura a condição humana, embora não trouxesse nenhuma resposta. E nessa manhã eu não cabia em mim. Não sabia o que fazer com tantos sentimentos, ardia com um desejo febril de deter o mundo, deter a vida e recriar meu sonho. Isso me parecia melhor que as doutrinas, não pregava recompensas nem exigia virtudes. Propunha apenas o prazer de amar e contagiar a todos, apenas isso. Era o som das flautas e o ritmo das cordas.

Se algo é maior que a realidade, só pode ser o que habita nosso íntimo abstrato e desperta às vezes com tamanha vivacidade, maior do que o que somos, maior do que nós. Se desmontarmos um edifício, viga por viga, bloco por bloco, e tornarmos a construí-lo, ele será novamente o mesmo edifício. Desfeita a trilha de dominó, juntadas as pedras outra vez, surge uma trilha do mesmo tamanho. Mas se pudéssemos desmontar uma pessoa, célula por célula, e se fosse possível montá-la outra vez, ela não seria apenas seu mesmo corpo com o mesmo número de células. Essa composição passaria a ser algo maior do que todas as suas células juntas. Sim, tornei-me científico. Na música, isso se parece: as notas que se encadeiam para formar uma canção ou uma sinfonia não seriam belas sozinhas, assim como um bloco do edifício, uma pedra de dominó não fariam sentido isoladamente. A diferença é que um edifício não passa de um edifício, enquanto a canção não é apenas o que é, não apenas o tempo de sua execução ou as páginas de sua partitura. O que faz dela música é ser mais do que ela própria. Então, o que há por trás de suas combinações e compassos? E o que nos torna algo mais do que a união de nossas células enquanto vivos? Não sei. Como vou saber?

No mesmo dia, como de hábito, fiquei com o Freire enfiando panfletos nas mãos dos que passavam. Eu me sentia bem. Imaginava que aqueles tabloides impressos também significavam mais do que papel e tinta, transcendiam sua condição gráfica e eram uma maneira de semear um sonho, montá-lo aos poucos, viga por viga, célula por célula, para que se tornasse um dia maior que seu próprio tamanho.

Que bela manhã! Eu estava disposto a amar, amar a todos! Sei que é absurdo. Sorria aos que passavam, cumprimentava homens, mulheres, crianças, brincava com o Freire, um idiota perfeito, eu. Sentia-me tão bem que poderia rir de meus pesadelos. Falo sério. Embora eu pressentisse tal entusiasmo como transitório, pretendia vivê-lo o mais que pudesse, pelo maior tempo possível.

Mas pude pouco. Na mesma tarde, enquanto trabalhava em minha mesa, notei que o colega do marco alemão aproximava-se com a mão fechada, sorrindo. Sim, com a abominável moedinha, a que lembrava a falta de caminhos. Que diabos eu poderia dizer-lhe? À pergunta de sempre, pensei em dar-lhe duas alternativas: a vida ou a morte. Mas ele nunca perde. O que fiz foi o seguinte: enquanto ele se aproximava, aproveitei para levantar-me, agindo como se não o percebesse, peguei a primeira pasta que encontrei pela frente e fui até a parede oposta do salão, onde a enfiei numa gaveta qualquer do armário de aço. Isso tudo em questão de segundos. De lá, corri ao banheiro e escapei. Fiquei encostado no fundo de uma divisão, esperando que a porta se abrisse a qualquer momento. Mas ele não apareceu. Devia ter encontrado algum colega mais acessível para explicar que aquilo era um marco alemão, jogá-lo para cima e sair ganhando. Eu havia escapado e até gostei da ideia. Planejei também uns palavrões para lhe atirar à cara da próxima vez, inclusive sugerindo-lhe em boa voz o que fazer com aquela moeda ridícula, sim, isso mesmo.

Voltei para tirar a pasta de onde a havia enfurnado, mas de longe vi que minha colega (aquela, a católica) estava com a gaveta do armário aberta querendo saber, muito irritada, quem diabos havia jogado uma pasta ali. Eu havia me esquecido de que aquela era a gaveta dela, na hora isso não me ocorreu. O primeiro impulso que tive foi o de voltar correndo ao banheiro e enfiar-me no fundo da última divisão, mas isso teria sido pior. Quando cheguei mais perto e me confessei, tive de ouvi-la ralhar com uns olhos nervosos, injetados, mas que também não escondiam algum prazer pela oportunidade de ralhar comigo. Sim, um bombardeio. Enquanto falava, olhava para o chefe, depois para mim, chamava-me irresponsável, perguntava-me o que estava fazendo ao invés de trabalhar, por que havia atirado ali a minha pasta, que havia amassado uns cartões tais que ela conservava com zelo etc., etc. Pedia que eu olhasse o que havia feito, apontava a gaveta aberta. Eu fingia arrependimento enquanto olhava para baixo. De fato, os cartões estavam bem amassados. Suportei tudo com paciência. E ela falava, falava. Quando parecia haver terminado, eu já segurando a pasta com as duas mãos, ela se lembrava de algo e despejava-me mais uns chavões para que todos ouvissem. Então eu lhe disse:

“Olhe, eu sei que você está irritada comigo, eu sei mesmo. Você está irritada comigo e com razão. Você está certa e coberta de razões. Tem toda razão mesmo…”

Mas ela não me deixava terminar, embora eu só fosse dizer aquilo mesmo. Conforme eu me mantinha calado, ela me espezinhava ainda mais, e eu pensei que aquilo não fosse acabar nunca. Ninguém sabe como fica um cristão irritado. Na hora, cheguei a pensar: “Bem, acho que vou dar-lhe com a pasta na cabeça.” Mas contive-me. Após um certo tempo escutando alguém, sempre acabo me distraindo, e como já não estivesse prestando atenção a nada do que ela dizia, fiquei me perguntando em silêncio: o que será que vou sonhar esta noite? Ela falava, falava…

À noite, havia passado completamente minha crise de amor. As semanas também passaram. Tive outros pesadelos, ocorreram-me outras bobagens, cheguei novamente a acreditar no sonho com os músicos e ainda distribuía panfletos nas esquinas. A sensação do sonho inesquecível nunca mais se repetiu. Eu estava curado. Podia viver outra vez como o resto dos homens, uma pessoa normal, sem me preocupar com esses ideais de fraternidade, tão sem importância para cada um. Só me restava a consciência de morrermos todos na semana seguinte, o que é inevitável.

Não há tempo para o que escrevo. Talvez um dia não mais exista o meu idioma. Mas haverá gente, luz, manhãs, e quem sabe alguém despertando entre pesadelos.

Como fica então o meu sonho de unir a humanidade? E tudo aquilo que eu iria cultivar? Ora, não sei. Às vezes me lembro disso e torno a embriagar-me de esperanças. Fico repetindo a mim mesmo que tudo é possível, que as pessoas não são tão difíceis, que certos sentimentos são de natureza contagiante e podem transformar-nos a todos, inclusive a mim mesmo, que talvez eu possa amar de verdade as pessoas que me cercam, cultivá-las. Mas essa católica, esse sujeito da moeda

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Imagem: John Houston. Chicago Hancock, chuva em novembro (detalhe inferior).

Como desviá-los de si mesmos?

Como pode um ser humano de verdade submeter-se a semelhante tarefa?
(Por extensão, perguntava-me o mesmo quanto aos jogadores.

Carl Spitzweg. O hipocondríaco (detalhe). 1865.Pelo vidro da grande loja, o arranjo das incontáveis telas de TV, os aparelhos ligados ao mesmo tempo, multiplicando imagens de uma partida de vôlei que, evidentemente, não me interessava. Uma coisa dessas nunca me interessou, é claro, nem mesmo em dias de melhor humor. O que prendeu-me os olhos por um instante, num lapso de atenção, foi a seriedade com que o juiz da partida aparecia em tomadas mais próximas: o rosto impassível, apito na boca, os gestos seguros, a expressão de autômato com que se virava para um lado e outro, apontando o saque. Engraçado, admito. Mas antes de começar a rir, ruminei uma certa pena dele. Como pode um ser humano de verdade submeter-se a semelhante tarefa? (Por extensão, perguntava-me o mesmo quanto aos jogadores.) Não sente o horror de um momento assim regrado e árido, não arderá em desejos de cair fora dali, correndo como um louco em busca de algo que lhe dê vida, que o faça transbordar de entusiasmo, de paixão? Não. Ali estava ele, cumprindo seu dever, o pobre homem. O que falta numa dessas partidas é alguém como Camila, que os faça a todos despertar para novas dimensões do possível, depois de rompido o círculo. Isso resolveria tudo, não é, Camila? Talvez. Não sei. Não sei mais. Continuei andando, sem ter para onde ir, reconhecendo nesse dia que eu não passava de alguém apagado como aquele juiz do vôlei ou um daqueles tristes jogadores suados. Não havia nada que me inspirasse fascínio ou paixão.

Para agravar ainda mais esse meu estado sem graça, passei por acaso em frente a uma porta com escadas que davam para uma academia de judô no andar de cima. Judô ou o que o valha, como vou saber? Artes marciais, melhor – assim fica entendido ou subentendido ou nem uma coisa nem outra, mas no fim todos compreendem. Ouvia os gritos agudos, secos como uma pancada, e podia imaginar uma porção de caras como eu, uniformes orientais, todos repetindo os mesmos passos e gestos planejados, os mesmos movimentos, e por quê? Para quê? Certo, ninguém sabe. Um enigma. Um mistério.

“Iá!”, faziam os tolos lá em cima. “Há! Iá!”

Ai, pequena Camila! Nesse caso, as coisas são bem mais difíceis. Não há bola. Só homens. Como desviá-los de si mesmos?

“Iá!”, eu ouvia com desgosto. “Há, há, há!”

Dizem que tudo são pretextos para que as pessoas se aproximem, com isso aumentando seus círculos de amizades. Círculos, eu disse. Muito bem. Embora este mundo seja fértil em pretextos, duvido que seja só por isso. Não só. Os que participam de algo assim de fato acreditam no que fazem, acreditam ter uma função, um papel significativo em relação ao grupo e até em relação a outros grupos. Sim, é uma pena. Mas, no fim das contas, nada disso me interessa.

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Imagem: Carl Spitzweg. O hipocondríaco (detalhe). 1865.

Todos nós morreremos na semana que vem. Parte 6

Dias nítidos, claros pesadelos

Eu mal podia afirmar se ainda sonhava ou não, se estava vivo.
Em minha memória desenrolava-se outra vez o pesadelo do passado
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Carl Spitzweg. O hipocondríaco (detalhe superior). 1865Sou o que chamam uma mente atormentada. Não importa. Tenho tido dias difíceis, mas tem valido a pena. Acreditava em certas coisas que hoje sei falsas, mas não me incomodo, prefiro a verdade. Sou um homem comum, um homem qualquer, e tenho meus pesadelos. Num dos últimos, assisti a batalhas históricas, vaguei por muitos povos e épocas diferentes, participei da miséria que identifica todas as gerações humanas e, quando me dei conta, tudo isso estava contido em uma pequena arca de bronze que eu segurava com as duas mãos. Eu estava no topo de um penhasco, frente ao mar, e das alturas via os rochedos escarpados lá embaixo, emergindo das ondas. Não suportando mais a visão do passado, fechei a arca com tudo que acontecia nela, o que já havia acontecido, o que tinha em mãos. Fiquei inerte, olhando a cor do bronze, o mesmo que se usa para os monumentos. Tornando a abri-la, o que encontrei foi um punhado de poeira. Virei tudo para baixo, dispersando a poeira no vazio e no vento, fazendo-a partículas insignificantes, perdidas para sempre.

Despertei, outro dia de sol. Diante do espelho do banheiro, os olhos nublados, restava a sensação confusa que era a minha vida a cada momento. Eu mal podia afirmar se ainda sonhava ou não, se estava vivo. Em minha memória desenrolava-se outra vez o pesadelo do passado. Ao mesmo tempo, sabia do que me esperava como sempre: as ruas do presente, pessoas em movimento, o povo e a época a que eu pertencia por acaso. E mirava o espelho da história, meu próprio rosto à luz da manhã.

Fecho os olhos, imagino que morro. A morte não importa. Falo de outra coisa, falo a mim mesmo enquanto também repito que não há mais o que dizer. O que era eu ter sido criança, ter vivido variadas impressões da realidade e então morrer num momento qualquer? Morrerei na semana que vem. A história e a minha infância não existem. Tudo não passa de um sonho de poeira, antes um de meus pesadelos, o pesadelo de estar vivendo qualquer vida. Os dias nítidos, tão claros, e tudo certamente perdido. Como hoje, haverá um último dia de sol, e nunca mais a história tornará a acontecer. Aqueles que talvez lerem isto no futuro estarão apenas assimilando pesadelos, nada mais. E morrerão na semana seguinte.

Os homens jogando dominó, as trilhas de poeira, labirintos de pedra, tudo tão vazio como um sonho cinzento de nada. E todos nós, na semana que vem… Os músicos andinos: o som de suas flautas, o ritmo de cordas, canções cristalinas como o tempo jovem que se vive, os dias do presente. Depois, Freire e eu distribuindo panfletos, minha colega cristã, que não tinha pesadelos, seu desprezo por mim, o outro com sua moeda de duas faces, suas duas opções, seus dois caminhos para coisa nenhuma. Vida, morte, tudo se tornara insuportável para mim.

Só a música dos estrangeiros permanecia bela, cativante, separada da realidade. As notas perseguiam-me, voltavam-me assobiadas quando distraído, acompanhavam-me. À noite, aconteceu-me memorizá-las até bem perto do sono. Repetia, com murmúrios, uns trechos cristalinos que já conhecia inteiros. E adormeci. Nessa noite, sonhei com os músicos. Com as canções e os dias de sol. Não era um pesadelo, apesar de tão nítido. Os músicos vestiam trajes típicos do Andes e tocavam as canções que eu conhecia. Depois percebi que eles não tocavam seus instrumentos: a música fluía por si mesma, vinda de toda parte. De mãos dadas, os cantores formavam um círculo de pessoas que dançavam e cantavam, do qual eu fazia parte e onde estavam também o Freire, meus colegas de serviço, pessoas conhecidas. O sol se detinha sobre nós, foi o que a intuição me mostrou. A música, cada vez mais bela. O sentimento que nos unia era de uma ternura, de uma sinceridade contagiantes. Era o amor, como tão raras vezes sentimos. Tais sensações de plenitude invadiram-me de maneira tão intensa que me fizeram despertar em lágrimas, lágrimas emocionadas do que eu não sabia. Não me lembrava de ter vivido algo assim tão poderoso e não pensei que isso pudesse ocorrer, sem aviso, numa noite qualquer em que normalmente eu estaria sendo surpreendido por algum novo pesadelo. Não, não se trata de sentimentos piegas. E mesmo que o fossem, e daí? É que sinto uma enorme admiração pela vida.

A conspiração dos felizes

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Às vezes torno a embriagar-me de esperanças – sequência

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Imagem: Carl Spitzweg. O hipocondríaco (detalhe superior). 1865.

Eu, onde estou?

Um novo calafrio, dessa vez mais agudo. Isso também não importa.
Nem o que me aconteceu ver e ouvir enquanto errava sem qualquer intenção por essas ruas.

Vincent van Gogh. Tecelão ao tear. 1884Observava tudo e não conseguia vislumbrar o que fosse importante. Nunca o suficiente. Pessoas por toda parte, homens com valises, funcionários uniformizados, estudantes e seus livros, qualquer coisa que sugerisse alguma seriedade parecia-me ridícula. Tenho desses momentos. Vendo os estudantes, voltava-me a adolescência, os tempos em que todos tínhamos de estar integrados uns aos outros, todos mais ou menos semelhantes, no fundo desejando constantemente mostrarmo-nos superiores aos demais, humilhando alguém mais fraco ou tentando ser admirado por nossos iguais do sexo oposto. Éramos todos ensinados a ser alguém, pois quando não é mais preciso provar nada aos outros, torna-se difícil viver. Ninguém nunca nos ensinou a romper com tudo, inclusive com o gênero humano e cada um consigo mesmo. (Claro, por que fariam isso?) Nunca nos foi dado desafiar a própria inexistência, blasfemar contra as dimensões possíveis e livrarmo-nos do conceito de ser um indivíduo entre outros, todos tão importantes. Se não fôssemos o que somos, como seríamos? Isso sim é uma pergunta idiota. E todos os conhecimentos que absorvi, como ficam? Mais uma. Foi por causa dos estudantes que pensei nisso, acho.

Ainda sobre absorver conhecimentos… Não, não é bem isso. Mas antigamente, isto é, até uns dias atrás, eu costumava entrar numa livraria, esquecia-me de tudo, tudo mesmo, e ficava ali por uma eternidade, folheando títulos, lendo prefácios e posfácios, orelhas, poemas inteiros – até que algum funcionário desse a entender que eu já estava absorvendo demais de sua mercadoria, o que não me alterava absolutamente. Difícil acreditar que eu passava em frente a uma dessas lojas sem o menor interesse e mesmo com alguma repulsa por tantas prateleiras e volumes. Pois foi assim. Foi assim nesse dia.

Alguém esbarrou em mim. Que pressa eles têm. O que perseguem? Uma ideia. A ideia fixa, ou não tão fixa, que se inventam para poderem viver até a morte. Não é assim com todos? Homens que trabalham com fé na vida ou somente por dinheiro, militares com suas pátrias, religiosos e seus cultos, outros tantos… Eu, onde estou? Sim, a rua da livraria. Dizia-me há uma semana que não me esquecesse, quando passasse por ali, de… Não me lembrava mais o que era. Nem a que altura ou o que pretendia, enfim, nada. Um novo calafrio, dessa vez mais agudo. Isso também não importa. Nem o que me aconteceu ver e ouvir enquanto errava sem qualquer intenção por essas ruas. No entanto, escrevo sobre tudo isso, o que não deixa de ser digno de escárnio.

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Eram eles os doentes, não eu – anterior

Como desviá-los de si mesmos? – sequência

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Imagem: Vincent van Gogh. Tecelão ao tear. 1884.

Todos nós morreremos na semana que vem. Parte 5

Uma pergunta perigosa

Ainda: não é a crença ou a descrença o que me impede de tentar morrer.
Disse certa vez que não me suicidava por falta de fé, mas isso é ridículo, além de ser uma grossa mentira.

Carl Spitzweg. Arte e ciência (detalhe inferior). 1880“Ateus: não têm nem vergonha de dizer que são ateus…”

Ora, não importam todas as histórias em que essa minha colega acredita. Nada passa a ser verdade só porque ela quer. Se Deus não existe, não existe para ninguém. Admito que é cansativo discutir isso, e pensar num assunto desses com seriedade está entre as coisas mais aborrecidas do mundo. Não adianta considerarmos infinitamente o emaranhado sucessivo de pregações que nós mesmos nos demos. E Deus sempre foi uma confusão dos diabos.

 Ainda: não é a crença ou a descrença o que me impede de tentar morrer. Disse certa vez que não me suicidava por falta de fé, mas isso é ridículo, além de ser uma grossa mentira. Não importa ser um cético, não o ser. Não importa o que se imagina. A fé ou o nada, tudo nos convida à morte e, especialmente para alguém como eu, isso se faz indiferente. Ora, por que não me atiro logo pela janela? Não sei. Já disse que não tenho respostas. Creio apenas que, em última análise, viver é insistir no impossível.

Já me fiz a seguinte pergunta: que diabos eu faria se soubesse que iria morrer na semana seguinte? Exatamente. Tanta coisa e talvez nada. A vida é assim. Na semana que vem ou daqui a cinquenta anos, o fato é o mesmo. Trata-se apenas de uma questão de tempo. A resposta a essa pergunta já está ao nosso alcance e é o que todos fazem o tempo todo, isto é, tudo o que fazem. Parece ridículo. Não é. Pois todos nós morreremos na semana que vem.

Sobre a mesma pergunta. Uns colegas mais audaciosos sugeriram estados de extrema devassidão e ruidosas bebedeiras, passando por perversões sexuais, enfim, tudo o que de verdade gostariam de fazer. O mais tímido sairia a correr nu pela cidade. O mais pacato garantiu que daria um tiro no presidente da República – mas claro que ele estava brincando. Todos eles cristãos, é preciso que se registre. Outros, mais respeitosos, disseram que apenas esperariam, com medo de Deus. A partir daí, nunca mais eu fiz essa pergunta a alguém. Não, nunca mais. Todos devem morrer na semana que vem, daqui a cinquenta anos, e meu receio é que descubram isso, que irão morrer mesmo, e deem início a um caos desenfreado de loucuras. Enquanto não sabem, o mundo continua como está, cada qual sua filosofia e conclusão. O céu é azul, por isso os patriotas venceram. Feliz ano novo.

Por que me preocupo de tal maneira e receio que o mundo se transforme num paraíso da algazarra? Por que, se também eu vou morrer na semana que vem? Não sei. Ninguém sabe. Viver é mesmo insistir no impossível. E todos nós morreremos na semana que vem.

A conspiração dos felizes

Panfletários, mas por quê? – anterior

Dias nítidos, claros pesadelos – sequência

Guia de leitura

Imagem: Carl Spitzweg. Arte e ciência (detalhe inferior). 1880.