Inconsistência dos retratos. Adicional

Sete anos em Manhattan

Eu havia reencontrado um amigo dos tempos de escola, numa livraria, mas ainda não fora esse episódio isolado, inicialmente desprovido de maior significado, o que deflagrou a ideia do conto. Em outro momento, fiquei pensando na vida de todos nós, filhos do capitalismo, das ilusões materiais e das ideologias que nos obrigam, desde cedo, a ser bem-sucedidos em alguma coisa. Criei essa metáfora de um reencontro, associando a lembrança de meu amigo distante, tendo como narrador-personagem um homem não propriamente bem-sucedido financeiramente, mas bem-sucedido no processo de construção de sua “casa”, isto é, sua pessoa, sua estrutura interna, enfim, sua vida – enquanto o outro, movido por todas as recompensas materiais e morais propostas pelas ideologias vigentes, não havia encontrado a si mesmo. Tento cultivar essa lição a partir de minhas próprias composições: a ilusão de ser um escritor famoso ou bem pago por seus livros não se compara à gratificação que um texto, bem-sucedido em si mesmo, pode proporcionar a seu autor. Não vale a pena ser um Hemingway, se o preço disso é suicidar-se vitimado pela angústia. Afinal, o que podemos aprender ou ensinar uns aos outros? Tomara que seja a verdade.

Um par de amigos, um caso ímpar e A prometida história de fantasma, com os mesmos personagens, seriam os primeiros contos de uma série tratando da amizade entre os homens, seu cotidiano, seus interesses, usando uma linguagem acessível, tons de bom humor e mencionando atualidades.

 

A conspiração dos felizes. Adicional

A conspiração dos felizes (1989) surgiu de um impulso irresistível e pretendia ser apenas um conto. Surgiu a partir de um sonho que tive, daquela categoria de sonhos muito vívidos e nítidos, que na prática não transcorrem para além de alguns segundos quando recordados.

Como sucedeu a Rimbaud em relação a sua obra poética, o texto tinha a função de uma catarse devastadora. Anos depois, eu me dei conta disso e estive muito perto de destruí-lo, mas decidi que não deveria envergonhar-me disso, ao contrário, o texto agora me servia como uma espécie de lição sobre mim mesmo e podia ser visto sob outra óptica, pois contém inúmeras implicações de caráter inconsciente. O personagem-narrador é um rapaz frustrado e vingativo. Lembro-me de que certos trechos foram redigidos sob influência de uma forte carga emocional, sendo alguns entrevistos em sonhos (agora derivados deles), tal a intensidade e a frequência com que me entretinha com eles. A partir daí, passei a ampliar e aperfeiçoar o texto. Inicialmente desprovido de apuro técnico, era desenvolvido sob a tirania de certos impulsos e tinha em torno de quarenta páginas. Eu tentava também, confusamente, denunciar o nepotismo.

O subtítulo (“e outras histórias de febre e esperança”) refere-se às quatro narrativas que se seguem à principal, sobre uma premeditada vingança por motivos aparentemente absurdos, envolvendo a disparidade entre as classes sociais.

 

Renata era o nome de Vanessa na primeira versão – porque ressurge na vida do narrador-personagem, renasce. A opção por Vanessa tem a mesma razão pela qual foi escolhido o nome Vanda, de Os últimos dias de agosto, a de sugerir uma pessoa vã. Hesitei em repetir a ideia, mas não encontrei nada melhor pra o que pretendia.

Talvez o conto “Ana”, escrito no mesmo ano, enquanto trabalhava os rascunhos de A conspiração…, tivesse o efeito de uma compensação, que trata do amor sensual e compartilhado, em contraposição às intenções de vingança que derivam ao sadismo no caso do outro.

Lisette Maris em seu endereço de inverno. Adicional

Em Lisette Maris em seu endereço de inverno, a estratégia escolhida para transcrever o livro que o menino lê antes de dormir foi a de confundir, como se confunde a percepção dos sinais sob o peso do sono, as palavras, sua forma e seu significado.

Espero que não haja também um traidor entre nós. Esses copos que se movem afinal          um traidor        isso não me engana e não significa          cães rebeldes prepar            nessa escuna e não poder part           

           ntre eles. Espero que não h             afinal os mares, que mares? Damares antes que os cães reb                     um      traid

Fecho os olhos e o livro. A escuridão alivia-me o cansaço, devolve-me imagens avulsas como aquele dia claro no flanco norte e os lábios úmidos de Damares. A um passo do tesouro, talvez. A rica vegetação, o que esconde.

Os dois-pontos, neste trecho (já que uma das funções desse sinal é apresentar algo ao leitor), foram usados para a apresentação física dos ambientes, conforme o personagem os percorre. As palavras entram com ele, andam ao seu lado, sugerem o tempo de percurso, que é breve, e faz ver, na sequência, que ele vinha sendo assessorado pela velha criada da casa.

Damares mora nesse sobrado razoavelmente luxuoso, mas que também não é a oitava maravilha mais antiquada do mundo. Cozinha: copa: antessala: corredor: a criada, que nunca me olha nos olhos, informa que ela está ouvindo música na saleta contígua, a das almofadas.

Estudo com cristais (1993) foi concebido como um ponto de partida para seis personagens que futuramente se desdobrariam em outras narrativas, como no caso de Ester e Marina, personagens de outros textos presentes em Lisette Maris…. Lis aparece em Carta com sarcófagos.

 Andante de um concerto barroco (1998) procura ser uma forma intermediária entre o teatro e a literatura escrita. Não aspira a ser uma peça e não pode ser visto como um conto. O narrador deve ao leitor a fala de cada personagem sem dar-lhes diretamente os nomes, que são inspirados nas notas musicais:

Ut – Ruth
Resonare – Renato
Mira – Miranda
Famuli – Flávia
Solve – Sílvio
Labii – Olavo
Sancte Ioannes – Ione

 

 

 

Sonho 3588. Prokofiev à porta

Entenda, eu estava exausto.
Era um momento de minha vida em que as coisas estavam perdendo todo o significado.

O sonho é bem simples, Juan. Parece ser. Não sei. Uma conversa tranquila, sob as árvores lá da frente. Frente de casa. Prokofiev ali, ao portão. Calvo óculos olhos claros. Então, é aqui que você mora? Ele me entrega uma pasta fina, papéis dentro, vejo que são partituras amareladas mal arranjadas, margens escapando do retângulo verde-escuro que é a pasta. Eu lhe trouxe um último concerto. Um último concerto? Como? Não compreendo. Isso me fazia culpado, repentinamente. Culpado, constrangido. Olha, Sergei Senhor Prokofiev, é, foi assim mesmo que eu disse, coisa de sonho. Sou um grande admirador do seu trabalho, do seu trabalho magnífico intenso emocionante. Para o senhor ter uma ideia, a única coisa de que eu me arrependo em toda a minha vida foi daquela vez em que dormi durante um de seus concertos, particularmente o Número 2, para piano. É o mais lindo. O que mais me fascina. E eu adormeci. Eu estou em falta com muitas pessoas, com muitas coisas, comigo mesmo até, nem sei mais com que e com quem mais. Na verdade, eu cochilei apenas, sem defesa. Dois ou três minutos, quando muito. Sem defesa. Mas eu estava exausto, entenda. Entenda, eu estava exausto. Era um momento de minha vida em que as coisas estavam perdendo todo o significado. Em que eu não conseguia mais identificar as coisas que-eu-mais-tinha. E a sua música ainda era o que de melhor e mais humano eu podia identificar. Um último sinal de vida nas trevas. Quando eu era adolescente, sabe, sonhei que os Beatles é que tinham ido até minha casa. Mas eu cresci. E hoje é o senhor quem está aqui, comovendo-me sem saber, intenso. Prokofiev entrega-me a pasta, tranquilo neutro genial. Tome, fique com isso. Um último concerto. Um concerto sem número.

Leia mais sonhos: Sonho 1204 A estação orbital

Imagem: Sergei Prokofiev (1891-1953).

Sonho 3457. Acompanhando Camila

Subitamente, fui tomado por uma impressão incômoda de que podiam ser os vestidos de três mulheres mortas.
Talvez tivessem sido enterradas ali, sob o piso da sala, e inexplicavelmente teriam descido ao fundo da terra sem que lhes acompanhassem suas roupas.

Amadeo de Souza-Cardoso. Cozinha da casa de Manhufe, 1913.Eu voltava com ela de algum lugar, não sabia qual. Mas sabia que estávamos, até então, conversando em alguma parte da noite na cidade, e eu a estava acompanhando até sua casa. Era algo como os princípios de um namoro, algum ritual de aproximação. Talvez (pois eu não tinha certeza) já tivéssemos nos beijado.

Entramos por uma passagem estreita, seguida à porta da frente, que levava a uma sala mais larga e a outros espaços maiores, externos e internos, porém indefinidos para mim. A casa parecia vazia, mas, mesmo assim, entendi que era hora de me despedir de Camila e deixá-la.

“Você pode ficar mais”, ela me disse. “Fique mais um pouco. Vamos ficar mais um pouco.”

Eu olhava seu rosto bonito. Havia alguma neutralidade, uma espécie de tristeza disfarçada em suas expressões faciais, quase imperceptíveis. Quase nada. Mas eu percebia.

Então surgiram duas mulheres envelhecidas, com roupas de serviçais, lenços prendendo os cabelos, uma delas com um pano de limpeza entre as mãos – esta saída da cozinha, a outra tendo atravessado uma das paredes. A que me pareceu mais velha tinha um rosto amarelado e rígido, como uma daquelas puritanas inglesas que eu conhecia das ilustrações de livros. A outra, mais baixa e morena, vinha logo atrás, seguindo a primeira.

“Você pode ficar mais, se quiser”, disse a mulher que estava à frente. “Ela está sozinha. E está triste. Fique um pouco mais.”

Moveram a cabeça, um mínimo aceno respeitoso, e entraram pela porta da cozinha, sugerindo com isso que se dedicariam, em seguida, a algum tipo de serviço doméstico.

“Vou pegar umas bebidas”, disse Camila sem sorrir.

Correspondendo e querendo agradá-la, eu lhe disse que pegaria bebidas também.

Ali perto, em um canto obscuro da sala, vi três vestidos estendidos paralelamente, como para secar ao sol. Mas isso não era possível, pois estavam no chão, um chão de lajes escuras e frias. Como podiam estar ali para secar ao sol?  Subitamente, fui tomado por uma impressão incômoda de que podiam ser os vestidos de três mulheres mortas. Talvez tivessem sido enterradas ali, sob o piso da sala, e inexplicavelmente teriam descido ao fundo da terra sem que lhes acompanhassem suas roupas. Não, era absurdo, eu não podia aceitar o que me passava essa impressão insólita e ridícula, por isso desviei-me dessa conclusão imatura, quase infantil, e ao mesmo tempo perturbadora.

“Não pode ser…”, murmurei a mim mesmo.

Entre um vestido e outro, próximo ao rodapé da parede, encontrei o que estava procurando: bebidas. Havia uma lata de refrigerante, rótulo vermelho, e um copo. Abaixei-me para pegá-los, voltei-me para Camila, a uns passos de dali. Abri a latinha de coca-cola, despejei seu conteúdo no copo e verifiquei, surpreso, que aquilo era cerveja.

“Nosso contrabando vai ser um sucesso”, brinquei.

Algumas pessoas que eu não conhecia acharam isso engraçado. Mas logo misturaram seus risos a outros ruídos e vozes, e não era possível saber do que estavam rindo de fato. Olhei ao redor, e agora estávamos entre muitas mesas festivas, com famílias e crianças, um dia de sol, à margem da piscina. Ninguém percebia minha presença, e Camila não estava mais comigo. Intrigado, girei a cabeça, girei o corpo, procurando por ela. Um dos meninos, de uma mesa próxima, olhou para mim e disse, erguendo um pouco a voz para destacar-se das outras muitas vozes:

“Ela não está mais aqui! Deve ter entrado!”

Permaneci em silêncio, sem reação, sem agradecer ao menino que tentava me ajudar. Voltei-me para a casa novamente, a uma larga porta lateral que separava, dos limites da casa, o terraço onde se dava essa festa familiar ruidosa, e era a entrada para outra grande sala que eu não conhecia.

Em contraste com as cores das paredes, de umas cortinas aparentemente sem função, uns enfeites e vasos ornamentais, em contraste com tudo que se via nitidamente sob a claridade do sol, o interior da casa era escurecido, cinzento e azulado, cheio de poeira. Cheguei mais perto, fiquei à entrada por um instante e então passei a caminhar lentamente em direção ao interior.

“Camila…”, chamei em voz baixa. “Onde você está? Estou com as bebidas. Quero ficar um pouco mais.”

Havia ferramentas no chão, espalhadas com certa desordem. Também mesas toscas, improvisadas, e pedaços de tábuas irregulares, como se a casa estivesse passando por alguma reforma. Havia também teias de aranha e pontos negros nas paredes, que podiam ser insetos de alguma espécie. Tudo opaco, empoeirado e sem brilho. Entendi que não se tratava de um trabalho de reforma. Era uma casa abandonada há muito tempo. Em ruínas.

Leia mais registros de impressões oníricas: Sonho 3415. A barricada das assassinas

Imagem: Amadeo de Souza-Cardoso. Cozinha da casa de Manhufe. 1913.

Brincadeira com bichos

O que achei de fato interessante foi o bicho escolhido, um escorpião. Achei interessante mesmo.
E era um rapaz anêmico, olhos fundos, parecia doente.

Cassio Polegatto. Gato preto. 2015.Sempre detestei ter de participar do que quer que fosse. Sempre mesmo, desde que me entendo por gente. Mesmo em criança, isso me parecia repulsivo. Tinha a impressão de ser forçado a ser como os outros, de pensar como pensa um grupo, agir conforme o já esperado, para que fosse sempre um como eles. Por isso. E não é pouco, convenhamos. Depois, por que haveria de ser como eles? Festinhas no escritório, por exemplo. Pessoas sem nada em comum, vidas separadas, hipocrisia diária… Não vou falar sobre isso, assim já é demais.

O fato de não pertencer a nenhum partido, ordem ou religião poupa-me de defender ideias alheias e torna-me sempre mais livre em minhas opiniões. Eis aí algo que me interessa, sim, a liberdade. A liberdade, por exemplo, de poder dizer qualquer coisa fora de propósito num momento em que todos se sintam unidos por algum tipo de… Muito bem. Já me sinto livre por interromper-me, sem dar trela a novas conclusões. Ah, sim! Muito bem. Isto vale mencionar, a última vez em que participei de alguma coisa, que me lembre.

Meu único interesse, quando me inscrevi, era conhecer o Liceu de Artes e a Pinacoteca do Estado, um programa barato, planejado a partir das linhas do metrô e de suas estações, perto das quais se localizavam os pontos a serem visitados. Formavam-se normalmente grupos de umas dez pessoas, acho, e íamos todos seguindo duas funcionárias uniformizadas em coletes cor de laranja que mais lembravam salva-vidas. Não, não exageremos. O programa não era propriamente um naufrágio. Acontece que, num certo intervalo entre uma andança e outra, uma das guias propunha que formássemos um círculo, e ficávamos todos ali, olhando a cara um do outro, tentando entender para que diabos serviria aquilo.

“Para que isso?”, perguntei a uma delas, a que estava bem ao meu lado.

“É uma brincadeira de integração”, ela sorriu.

Sim, só podia ser. Uma brincadeira. Principalmente nesse caso, tratando-se de pessoas que não se encontrariam pela segunda vez em toda a vida. Mesmo assim, a outra pediu que cada um de nós representasse com gestos um bicho de sua preferência, e o resto do grupo teria de adivinhar que bicho era aquele, claro. Ela lembrou que aquilo servia para exercitar a criatividade que existe em cada um de nós, que todos nós tínhamos criatividade, só o que faltava era desenvolvê-la etc. e tal. Falava sério.

“Todo ser humano é um artista”, concluiu. Disse isso com tal convicção que alguns moveram a cabeça como se de fato acreditassem.

Apesar das esperanças da moça, e só para se ter uma ideia, alguns imitaram cães, pássaros, cavalos e outros animais tão óbvios que levariam ao tédio uma criança de três anos. E o fizeram com a mímica mais evidente possível, como de propósito para contrariar as palavras da guia. Mas não creio nisso. Eles me pareceram, inclusive, bem à vontade. Mesmo assim, quando o grupo decifrava o bicho em questão, quase ao mesmo tempo em que o imitador se punha a gesticular, a guia mostrava-se excitada: “Muito bem!” Parece incrível, não é? Eu estava lá e vi – vi, com estes olhos! Enquanto os animais se repetiam, eu me perguntava desconsolado: será que isso tudo é mesmo necessário?

“Um peixe!”

“Muito bem!”

Para não dizer que foi tudo tão previsível, um sujeito ali imitou tão mal sua mascote que manteve o grupo intrigado por mais tempo. O que achei de fato interessante foi o bicho escolhido, um escorpião. Achei interessante mesmo. E era um rapaz anêmico, olhos fundos, parecia doente. Tive vontade de sair de meu lugar e cumprimentá-lo, nem sei por quê.

“Muito bem”, tornou a guia sem dar-lhe mais atenção.

Os outros iam lembrando mais bichos sucessivamente até que chegou minha vez e… Muito bem: eu me recusei. Isso mesmo. Muito bem. Disse a todos que não estava disposto a imitar bicho nenhum e só o que queria era conhecer a Pinacoteca. Alguns olharam-me com antipatia, eu sei.

“Não custa nada”, resmungou alguém.

Não, é verdade, não custa. Também não lhes custaria nada deixar-me passar a vez. A maioria não suporta que alguém não queira participar.

“Pelo menos fala o nome de um bicho”, insistiu a guia sem alterações em seu humor. “Só o nome.”

“Mas por quê?”, perguntei quase choramingando. Eu realmente não compreendia que necessidade todos tinham de coisas assim. “Por quê?”

“Ah, vai, fala…”, pediu uma das nossas, uma moreninha que vinha me observando especialmente, como pude notar, desde a primeira estação. “Fala, vai…”, pedia como num lamento.

“Só pra participar”, ajuntou a outra guia.

Era justamente isto o que ela não assimilava de minha atitude: a ideia de não participar, de forma alguma. O que me obrigava? Eu não me havia inscrito naquela excursão para uma coisa dessas. E me aborrece que alguém fale em participar, tanto que, quando ela disse aquilo, eu me tornei ainda mais arredio.

“Não, droga, não falo bicho nenhum. Acho isso tudo um…”

“Mas que que custa?”

“Fala um e pronto.”

“Ah, vai… Fala…”, repetiu a mesma garota, a bonitinha, ênfase mais suplicante.

“Camelo!”, gritei de repente.

Todos se assustaram.

“Muito bem!”, fez a guia, vitoriosa. “Camelo, muito bem.”

Ia dizer camaleão, mas esse bicho nunca me agradou muito, e o que saiu foi camelo, talvez pela proximidade de sons. Os outros aplaudiram, satisfeitos. A moreninha ficou muito contente. Camelo, Camila. Pior: camaleão. Isso resolve tudo, não é? O fato de eu ter dito camelo e a necessidade alheia de sermos todos semelhantes integrou-me à força naquela brincadeira inútil. Acabou-se o intervalo, e as guias nos levaram a conhecer outros itens do roteiro, uma à frente do grupo, outra entre os últimos de nós, em seus coletes salva-vidas, conduzindo o rebanho. Pronto. Está aí relatada uma de minhas raras experiências em integração.

Outra coisa que tive vontade de fazer, quando insistiram: deixar todos ali, naquele círculo idiota, e ir para qualquer outro lugar. O que poderia impedir-me? No máximo, diria algo como: “Isto não me interessa absolutamente. Não, absolutamente. Com licença. Isto não me interessa…” Mas eu me conheço e sei que não sou tão forte.

 Quarta-feira (A conspiração dos felizes)

Como desviá-los de si mesmos? – anterior

 – sequência

Guia de leitura

Imagem: Cassio Polegatto. Gato preto. 2015.